Intensidade

uma perna depois da outra

inspira, expira

correr até ser só o movimento:

som

a náusea de sentir cada parte do

corpo

o

cansaço

e a proximidade da pedra

na solidez

do sono,

a melhor parte da fome

que tenho de mim

O sol
sensível
invade os dias pelas frestas

ouço
as canções
abertas
feridas

“Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.”

o corpo
esquenta,
a fumaça se mistura
aos raios da manhã

Tudo é uma
bolorenta cor
que tento
espantar
com cafés
e silêncios

Para ler na voz do Caetano

Me afasto e disfarço

– não sou para o seu bico

dai vem a troça

sua troca

você se aproxima, calo

me pego de trouxa,

não sei o que digo.

e logo é outra coisa

afago, retrato, boca

– ninguém para o seu bico.

3º encanto

Criaria padrões de azulejos antigos

para novos vestidos com

usabilidade restrita:

você.

eu

leria mais pela casa

e tiraria seus vestidos  como cortinas

em que meus olhos pudessem te ler.

Você

bordaria palavras aleatórias

nos panos de prato

que lembrariam

as casas de avós

nós

inventaríamos o desuso para

talheres,

toaletes e

padrões

em poemas

rabiscados pelas paredes:

os panos de pratos serviriam

para recompor o

silêncio da ausência na casa.

entraríamos

outra vez

na fantasia

de sair de casa

pela porta.

– você usaria botas

e eu borboletas.